Uma poderosa força motriz do desenvolvimento humano é a experiência de ter a mesma experiência emocional dos outros ou de ter empatia com a emoção do outro. Esta força move desejos, intenções e iniciativa para compartilhar e interagir; e encontra-se prejudicada nos casos de autismo, pois não possuem a mesma necessidade em ter esta experiência e em compartilhar estados emocionais com os demais, através de olhares, gestos, falas, brincadeiras ou jogos.
Os autistas tendem a entender e executar tudo à sua maneira, de forma isolada, sem se importar em compartilhar suas experiências ou mesmo sem entender que estamos interessados no que estão fazendo ou mesmo que temos emoções e sentimentos alheios aos seus.
Também, tendem a nos mostrar ligeiramente o que estão fazendo ou podem apontar as coisas que desejam, também costumam pegar a nossa mão para que façamos algo para ela. Por vezes, adquirem um padrão, que a prejudica muito, de não permitir interferência no que estão fazendo ou aceitar alguma sugestão de mudança.
De qualquer maneira, a meta é ensiná-los a compartilhar no sentido de envolver outras pessoas naquilo que estão fazendo ou se deixar envolver naquilo que estamos dispostos a ensiná-la. Para isso temos que criar vivências legais e divertidas!

20 dicas para estimular o ato de compartilhar no autismo
Compartilhar pode não ser algo instintivo ou confortável para muitas pessoas autistas, ainda mais na vida adulta, quando já existem rotinas bem definidas, preferências claras e experiências sociais nem sempre positivas. Ainda assim, é possível incentivar trocas e conexões de forma respeitosa, leve e funcional.
As dicas a seguir não têm a intenção de “corrigir” comportamentos, mas sim de ampliar caminhos possíveis de expressão, interação e convivência, sempre respeitando o ritmo e o estilo de cada um.
Criação de ambiente seguro e estímulo à conexão natural
- Compartilhe seus próprios interesses com frequência, mesmo que não haja uma resposta direta. O contato frequente ajuda a construir familiaridade.
- Comente de forma neutra ou positiva sobre o que a pessoa está fazendo, sem impor julgamentos ou interferências.
- Torne sua presença agradável e previsível, criando um ambiente seguro e de confiança.
- Use linguagem simples e direta, com gestos ou imagens que ajudem na compreensão.
Validação e engajamento com os interesses da pessoa
- Integre os interesses da pessoa à sua rotina, trazendo novidades relacionadas ao que ela já gosta.
- Responda com interesse verdadeiro quando a pessoa mostrar algo que a interessa.
- Demonstre entusiasmo com os interesses dela, validando-os e mostrando que você também quer entender e participar.
- Valide as formas únicas de expressão da pessoa autista. Às vezes, compartilhar um interesse acontece por um post, um vídeo enviado, um link ou uma frase solta. Valorize esses sinais.
- Entre no ritmo da pessoa de forma genuína. Se ela estiver fazendo algo com foco ou repetição, tente participar de leve, sem invadir. Isso pode abrir espaço para trocas mais naturais. Às vezes, a conexão começa ali.
- Evite interromper ou corrigir diretamente o que ela está fazendo. Entre na atividade dela e, aos poucos, introduza variações dentro do interesse já existente.
Estímulo à interação leve e à troca de preferências
- Explore o mundo juntos quando possível: caminhar por um parque, visitar uma livraria ou observar o movimento da cidade pode ser uma boa oportunidade para trocar percepções, mesmo em silêncio. Às vezes, o simples estar junto já é uma forma de compartilhar.
- Converse sobre preferências de forma espontânea, como: “Você tem algo que anda curtindo muito ultimamente?” ou “Esse lugar me lembra coisas que gosto, e você, tem algo assim?” Isso ajuda a naturalizar o ato de compartilhar gostos e opiniões, sem parecer uma entrevista.
- Estimule trocas simbólicas, como: “Vamos trocar indicações de filmes?” ou “Você me mostra um livro que goste e eu te mostro um meu.” Isso gera conexão sem forçar exposição.
- Proponha pequenas dinâmicas leves, como jogos simples de escolha ou reação (ex: “se você tivesse que escolher entre essas duas músicas, qual você escolheria?”). Pode ser até em contextos online, com memes ou enquetes. O importante é criar espaço para trocas divertidas, sem cobranças.
- Proponha atividades com turnos naturais, como jogos, conversas estruturadas (ex: “três coisas que gostei essa semana”), ou aplicativos colaborativos. Isso ajuda na fluidez sem sobrecarregar.
Incentivo ao compartilhamento do cotidiano
- Estimule que ela compartilhe vontades do dia a dia, como: “Se quiser companhia pra ir até tal lugar, me chama” ou “Se tiver algo que queira mostrar, fico feliz em ver.” Mesmo que ela não compartilhe de imediato, saber que há abertura já é um ponto de apoio importante.
- Reforce pequenas conquistas sociais: se a pessoa iniciou uma conversa, fez um convite, aceitou um elogio, valorize, sem exageros. Isso fortalece a autoconfiança para futuras trocas.
- Entre no universo da pessoa quando estiverem interagindo e surgir um comportamento ou comentário repetitivo em vez de tentar corrigir. Depois, conduza para outra direção suavemente.
- Fale sobre detalhes visuais ou auditivos em imagens, sons ou ambientes, convidando a pessoa a observar com você.
- Proporcione situações de compartilhamento real: refeições, leituras conjuntas, pequenos projetos colaborativos.
Conclusão
Compartilhar não é apenas falar ou entregar algo a alguém, é criar conexões a partir do que faz sentido para cada um. No caso de adultos autistas, essas conexões podem acontecer de formas diferentes: mais silenciosas, mais visuais, mais práticas ou até não-verbais. E tudo bem. O importante é reconhecer que cada interação é uma construção conjunta, que precisa de respeito, paciência e abertura real para o outro.
Ao incentivar o compartilhamento de forma leve, sem forçar, e partindo dos próprios interesses da pessoa, criamos oportunidades verdadeiras de troca. Não se trata de ensinar uma “forma certa” de se comunicar, mas sim de expandir as possibilidades de presença, afeto e participação no mundo, do jeito que for mais autêntico para ela.
Aos poucos, com acolhimento e continuidade, o ato de compartilhar no autismo pode deixar de ser um esforço e virar um gesto natural.

